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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Chegou o Outono!

O Outono começa hoje às 15h21 no Hemisfério Norte... A precisão horária é do Observatório Astronómico de Lisboa ;)


Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta.

Fernando Pessoa in "Poesias Inéditas (1930-1935)"



quarta-feira, 11 de maio de 2016

Evolução


"Evolução"

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova. 

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!


"Mensagem", Fernando Pessoa
[III - O Encoberto] 

Foto: Vera Vieira da Silva

domingo, 5 de outubro de 2014

Sr. Tempo


Tudo tem a sua estação ... e o Tempo é um Senhor Sábio 

Há que saber esperar pelo Tempo, quando ele ainda vem a caminho ... e há que saber deixá-lo ir, quando o Tempo já passou ...

Lindo poema de James Browne, "An Ode to my Litlle Last Leaf" (Um Ode à minha Pequena Última Folha) - The World of James Browne

"An Ode to my Little Last Leaf"

You did well, my little friend,
you stayed with me until the end.
You were loving shade,
while children played.
I don't want to let you go,
my heart tells me, no.
But it is for this very reason,
that everything has a season.

Desenho e poema de James Browne


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Outono



"Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes."

Ricardo Reis, in "Odes"
[Fernando Pessoa]




terça-feira, 8 de outubro de 2013

Pedras que beijam


"Amar é assim. É transformar o tempo que não existe em eternidade que persiste. É fogo que arde sem se ver, é gelo que não quer derreter, é água que corre para chover. Amar é assim. É subir uma montanha descalço sem medo de pisar pedra ou vidro, é mergulhar no oceano sem botija de oxigénio, é subir ao céu sem asas. Amar é assim. É perpetuar na eternidade o amor jovem, aquele que não tem idade, é olhar e sorrir, é abraçar e sentir, é morrer depois de viver. Amar é assim. É dizer o quanto te amo agora e sonhar com o quanto te vou amar depois de cada sorriso, é não esquecer o que vivemos mas ficar louco com o que desejamos viver. Amar é assim. É desejar frutos do nosso fruto, é perceber que viver é muito melhor que morrer, mas que morrer depois de viver significará sempre que valeu a pena amar sem medo de te perder. Amar é assim." 

Texto: Paulo Costa
Foto: Autor anónimo 
Local da foto: Esta foto foi tirada no Parque Natural do Alvão (Trás-os-Montes, Portugal), perto da aldeia de Galegos da Serra, perto ainda da Cascata de Arnal. Pode ainda ver-se um pouco da cidade de Vila Real ao fundo. Um parque a conhecer, e a dar-se a conhecer pelas Fisgas Ermelo, uma das belas maravilhas deste Parque Natural. Para além de dois jovens a beijarem-se, costuma notar-se no lagarto que dorme sobre a sua cauda em baixo das ''cabeças'' dos beijoqueiros. 

ENGLISH  That’s love. Transforming virtual time into real eternity. Fire that burns invisibly, ice that doesn’t melt, water that runs to rain. That’s love. It’s climbing a mountain barefoot without worrying about hurting your feet on stones or glass; it’s diving without oxygen, flying without wings. That’s love. Perpetuating young love - that has no age, looking and smiling, holding and feeling, dying after living. That’s love. 

Text: Paulo Costa 

Photography: Anonymous 
English version: Peter Kirby-Higgs 
Location: This photograph was taken in the Nature Park of Alvão (Trás os Montes, Portugal), near the village of Galegos da Serra, close to the Waterfall of Arnal. In the distance a glimpse of the city of Vila Real. This is a park not to be missed, known for Fisgas Ernelo, one of the wonders of the Park. Apart from the two lovers, note the lizard sleeping undisturbed on his tail beneath the “heads” of the kissers.

Fonte: Facebook - Aldeias de Portugal

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Primeira



Para primeira mensagem de Ano Novo, relembro um poema de Fernando Pessoa, que é sempre bom de recordar...







Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já não me dói,
A antiga e errónea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.



Fernando Pessoa






Foto: Sintra, Portugal

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Aton


Akhenaton, faraó do antigo Egipto, escreveu as seguintes palavras sobre Aton, o Deus-Sol, representado como um disco solar do qual saem raios que terminam em mãos, como que oferecendo as suas bençãos:

"Respiro o doce sopro
Que sai da tua boca,
Vejo a beleza do dia,
É meu desejo ouvir a sua doce voz,
Comparável ao vento do norte
Sentir os meus membros revigorados pela vida,
Graças a ti.
Dá-me as tuas mãos,
que têm o teu espírito,
Que eu possa recebê-lo,
Viver para ele.
Chama pelo meu nome na eternidade,
Ele não morrerá nunca."


in "Nefertiti e Ahkenaton" de Christian Jacq

sábado, 29 de outubro de 2011

Amália & Vinicius



Poema - Alexandre O'Neill
Música - Alain Oulman
CD - Amália/Vinicius - Editora Valentim de Carvalho
Gravação realizada em casa de Amália Rodrigues em Dezembro de 1968 num serão com Vinicius de Moraes, Natália Correia, José Carlos Ary dos Santos e David Mourão-Ferreira (Fonte)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"Tá citando o princípio do mundo!"

Genialmente escrito, genialmente interpretado, genialmente inteligente!

Parece crítico dos homens mas no fundo não é, apenas revela a perspectiva feminina das coisas e aquilo que é preciso ter nascido mulher para sentir e saber.



"Aviso da Lua que Menstrua é um belíssimo poema de Elisa Lucinda sobre a mulher e sobre a relação homem/mulher, interpretado por ela no espetáculo "Parem de falar mal da rotina", apresentado no Teatro dos Bancários, em Brasília, dia 07 de março de 2010" (Fonte: Youtube)

domingo, 18 de setembro de 2011

Doubt thou...


Doubt thou the stars are fire,
Doubt that the sun doth move,
Doubt truth to be a liar,
But never doubt I love.


by William Shakespeare (1564-1616)

[from "Hamlet", in modern form]


(tradução livre)

Duvida que as estrelas sejam fogo,
Duvida que o sol se mova,
Suspeita que a verdade seja mentira,
Mas nunca duvides do meu amor.




[Foto: as Plêiades]

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

*



Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errónea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa



* os vossos comentários são muito bem-vindos! *

sexta-feira, 20 de março de 2009

Primavera


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro







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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

*



Tenho tanto sentimento

Que é frequente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheço, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que não senti afinal.


Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida,

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.


Qual porém é verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem de pensar.


Fernando Pessoa


em "Antologia Poética"



Desenho de Mary GrandPré


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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Entre o sono e o sonho



Entre o sono e o sonho

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho,

Corre um rio sem fim.


Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.


Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.


E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre -

Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa, "Antologia Poética"



Water-Lillies
, Claude Monet


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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

*



Were it not for
the excess of your talking
and the turmoil in your hearts,
you would see what I see
and hear what I hear!




Ibn Arabi (1165-1240)





Fonte aqui

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quarta-feira, 23 de julho de 2008

A Religião do Amor



I believe in the religion
Of Love
Whatever direction its caravans may take,
For love is my religion and my faith.



Ibn Arabi (1165-1240)



Fonte aqui


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sexta-feira, 18 de julho de 2008

Manoel Filó



"QUANDO EU PARTIR DESTE ABRIGO

SEGUIR À MANSÃO SAGRADA,

A MORTE ESTÁ PERDOADA

DO QUE QUIS FAZER COMIGO,

QUIS QUE EU FOSSE IGUAL AO TRIGO

QUE AO VENDAVAL SE ESFARELA,

MAS EU VOU PASSAR POR ELA

DE CABEÇA LEVANTADA

'A MORTE ESTÁ ENGANADA,

EU VOU VIVER DEPOIS DELA' "



Manoel Filó, poeta do sertão brasileiro




* Agradeço à Tânia, que mesmo não me conhecendo me mostrou mais uma estrela a luzir neste Mundo.


Sobre o Sertão

O 'sertão brasileiro' é uma zona de transição entre o Agreste e a Mata dos Cocais, estende-se desde o norte de Minas Gerais até quase toda a região Nordeste do Brasil. Caracteriza-se pelo predomínio do clima semi-árido, com ocasionais períodos de estiagem, razão pela qual essa região é também conhecida como "polígono das secas".
A palavra Sertão tem origem durante a colonização do Brasil pelos portugueses. Ao saírem do litoral brasileiro e entarem no interior, perceberam uma grande diferença climática nessa região. Por isso a chamavam de "desertão", ocasionado pelo clima quente e seco. Logo, essa denominação foi sendo entendida como "de sertão", ficando apenas a palavra Sertão.
O primeiro processo do país de interiorização ocorreu nessa região, entre os séculos XVI e XVII, com o deslocamento da criação de gado do litoral, devido à pressão exercida pela expansão da lavoura de cana-de-açúcar, que era o principal produto de exportação da economia colonial. A área foi conquistada por povoadores com escassos recursos e o desenvolvimento da pecuária possibilitou o desbravamento nos sertões. Os caminhos de boiadas assim criados permitiram a articulação e o intercâmbio entre o litoral nordestino e o interior, dando origem a diversas cidades
.

Fonte do texto sobre o Sertão: Wikipedia


Imagem: "Sertão", aquarela de Mauro Andriole (Fonte aqui)




* os vossos comentários são muito bem-vindos! *

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Gypsy


Relembrando as músicas que mais me marcaram quando era pequenina...

Semprei adorei a Susanne Vega, e esta música é a minha preferida dela, "Gypsy". É também das músicas mais antigas de Susanne, que compôs com apenas 18 anos! A letra é linda, espreitem abaixo...




Novembro 2007

"Gypsy"


You come from far away

With pictures in your eyes

Of coffeeshops and morning streets

In the blue and silent sunrise

But night is the cathedral

Where we recognized the sign

We strangers know each other now

As part of the whole design


Oh, hold me like a baby

That will not fall asleep

Curl me up inside you

And let me hear you through the heat


You are the jester of this courtyard

With a smile like a girl's

Distracted by the women

With the dimples and the curls

By the pretty and the mischievous

By the timid and the blessed

By the blowing skirts of ladies

Who promise to gather you to their breast


You have hands of raining water

And that earring in your ear

The wisdom on your face

Denies the number of your years

With the fingers of the potter

And the laughing tale of the fool

The arranger of disorder

With your strange and simple rules


Yes now I've met me another spinner

Of strange and gauzy threads

With a long and slender body

And a bump upon the head


With a long and slender body

And the sweetest softest hands

And we'll blow away forever soon

And go on to different lands

And please do not ever look for me

But with me you will stay

And you will hear yourself in song

Blowing by one day


Oh, hold me like a baby...



Música do álbum "Solitude Standing" (1987)

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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Queda do Império


Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz
Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império mil almas
Por pau de canela e Mazagão.

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, luanda sempre em flor.


Letra e música de Vitorino
do álbum "Flor de La Mar"






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